Crítica: RoboCop [2014]

Eu, Fillipe Rocha, tenho uma confissão a fazer, que robocop_posterpode chocar muitos dos amigos (e desafetos, a partir de agora). Revi o RoboCop, de 1987, e dois dias depois assisti ao novo RoboCop (RoboCop. EUA, 2014), do diretor brasileiro José Padilha, e preciso dizer: o novo RoboCop é um filme melhor realizado que o primeiro RoboCop.
Notem que cuidei e escolhi bem minhas palavras. Não disse que o RoboCop de José Padilha é MELHOR que o RoboCop do Paul Verhoeven. Mas é SIM melhor pensado, mais cuidadoso na sua execução e melhor finalizado, num todo.

Assisti uma cópia blu-ray do antigo RoboCop, com tudo o que o Full HD pode nos oferecer, e preciso novamente confessar que senti vergonha da armadura do RoboCop original. Não que esse novo tenha me conquistado. Não conquistou. Fiquei extremamente incomodado desde que vi a primeira imagem de divulgação dessa nova armadura. E essa inquietação perdurou durante toda a exibição do novo filme. A armadura nova não convence, assim como a antiga, sendo colocada à prova da alta definição, também não convence. Podemos ver a roupa de lycra colante por debaixo da armadura de borracha e plástico. Sem contar das diversas demão de tinta preta no protetor de queixo feito de borracha. Mas foi a armadura que nos acostumamos e é a armadura que amamos e vemos só de relance no novo filme. Sentimos saudade dela. Mas (olha a polêmica) é uma das poucas coisas que sentimos falta do filme original.

Paul Verhoeven foi muito feliz em criar uma grande sátira do corporativismo, da violência e das políticas públicas da década de 70/80. Críticas e mais críticas iam sendo exibidas com uma roupagem de ficção-científica de ação. Mas analisando hoje, RoboCop tem um roteiro muito mal amarrado e uma edição confusa. O final do filme não possui um clímax e as informações vão sendo atiradas no espectador, que na época só queria ser maravilhado pela violência absurda e pelo robô-policial em ação.

Qual não é nossa surpresa quando vemos o quanto José Padilha agregou positivamente a essa história toda. Junto dos roteiristas, ele consegue atualizar de maneira esplêndida toda a discussão do primeiro RoboCop e ainda amplia a mesma. Conseguimos ver, através dos olhos de Padilha, o quão atual é a discussão a que a história de RoboCop se propõe (ponto para o original) e o quanto ainda temos a conversar sobre isso.

Ficamos felizes em ver da metade do filme pro final, José Padilha voltando ao tema de Tropa de Elite 2, a corrupção policial e política, além da mídia tendenciosa que permeia tanto a continuação da história do Capitão Nascimento, quanto o novo RoboCop, fantasticamente guiada por Samuel L. Jackson. Muitos estão reclamando desse viés que Padilha abordou, dizendo que é tudo muito superficial e bobo. Mas não podemos esquecer que esse é um filme hollywoodiano, feito para um público que não está acostumado a discussões sérias e corajosas como as que Tropa de Elite 1 e 2 se propôs. Então, ver esses assuntos tratados, mesmo que de forma velada e/ou didática, num blockbuster, já é uma vitória. Inda mais quando é orquestrada por um diretor brasileiro.

robocop2014-6

José Padilha fez um ótimo trabalho, junto de seu montador e seu fotógrafo, trazidos junto com ele como condição: os eles vinham junto ou José Padilha não fazia o filme. Fizeram todos um ótimo trabalho. Gary Oldman, Samuel L. Jackson e Michael Keaton são a alegria do filme e ficamos torcendo a cada momento pra ver novas cenas dos três. Joel Kinnaman interpretando Alex Murphy/RoboCop deixa a desejar. Não chega a incomodar, mas não entrega nenhuma cena que nos faça acreditar nele.

O RoboCop em si e todo o seu desenvolvimento como personagem é que acabaram sendo o ponto negativo do filme. José Padilha e os roteirista parece que ficaram tão maravilhados com toda a discussão que a história oferecia, que se esqueceram dos personagens, na sua maioria. O original também não foi um primor nesse sentido, mas conseguíamos ver elementos que nos ajudam a construir o personagem Murphy/RoboCop.

O saldo geral é positivo. Assista o original novamente antes de ir ver o novo RoboCop. Tire suas próprias conclusões, deixando a razão falar mais alto que a emoção. Mas se emocione também, lembrando como era bom se contentar com um robô calçando um Rayder. E como é bom ver, hoje em dia, um filme legal e divertido, feito por um brasileiro, na Meca do cinema, pro mundo inteiro ver.

AH! Claro! Se prepare: a cena do Murphy se vendo pela primeira vez como RoboCop vai ser o que você mais vai se lembrar desse filme nos próximos anos.

OPINIÃO DO PUPILAS EM BRASAS:

Ótima atualização de um clássico.
História e execução não comprometem nem destroem o mito do RoboCop.
José Padilha levando discussões mostradas em Tropa de Elite 2 para Hollywood, NUM BLOCKBUSTER!
Discussões e críticas políticas e sociais relevantes e que valem a pena entrarem num papo pós-filme.
Violência velada e leve, MUITO, mas MUITO diferente do original.
Assista sem medo e SEM PRECONCEITO.

Rocha
Já assistiu e leu de tudo. Mas tem uma séria incapacidade em fazer contas de cabeça.
  • Fillipe Rocha

    valeu pelos comentários, queridos. mas vejam o filme. posso ter falado um monte de bobagens aí! quero ver o que vocês acharam!

  • Adriano Toledo

    Me levanto e aplaudo Fillipe. Tem que ter coragem pra reconhecer que o original tem sim problemas, o povo acha que alguns filmes são intocáveis, e tem muito babaca por ai falando mal do filme do Padilha só pq é PG13. Não precisa e não dá mais pra fazer filme hiper violento hoje em dia, e o original exagera nesse ponto. Estou ansioso pra ver o novo Robertcop, mas logo verei e comentaremos mais sobre…

  • Nito Xavier

    Em um Pupilas de Segunda do ano passado que falamos da noticia do José Padilha filmar o Robocop, já tinha deixado a minha opinião de que ele salvaria o filme. Mas ainda não vi o filme.

    • Léo Agrelos

      Eu confesso, não esperava nada por esse filme. Fui levado a crer, pelas declarações do Padilha, que ele seria apena um fantoche na mão da produtora. Mais um caça níquel sem sentido. A julgar pela excelente crítica do Fillipe, acho que queimei a lingua. Ainda bem!

Top