[CINEMA] Ressurreição

516218Confesso que Ressurreição (Raisen, EUA, 2015) foi um dos filmes cristãos que mais aguardei desde que assisti o trailer. Recebi o privilégio de poder assistir a pré-estreia numa sala de imprensa na sede da Sony. Fui empolgado. Valeu a pena, o filme é ótimo. Mas vamos por partes. Começando pelos “poréns”.

Minha primeira decepção veio no meio do filme. A obra tinha um potencial gigantesco em termos de apologética cristã. A ressurreição de Cristo é o fato histórico com o maior número de evidências de que Cristo era realmente o filho de Deus. Há muitas coisas para se tratar nesse assunto. Muitas ideias poderiam ser exploradas, ainda mais com um protagonista descrente, na missão de investigação do caso. Era a faca e o queijo na mão. Quem conhece as evidências da ressurreição de Cristo sabe o desperdício que foi tratar de maneira muito leve tais evidências, e se você está lendo esse texto e não conhece essa faceta da história por favor pesquise o tema, vai se impressionar.

Optaram pelo viés evangélico/norte-americano de relacionar fé a subjetividade e emoção. A famosa ladainha hollywoodiana “ouça a voz do seu coração” não é pronunciada, mas está em todo lugar. Em vez de usar a razão e todo o favorecimento que esse trecho da história confere a ela, decidiu-se pela experiência pessoal e subjetiva de alguém que entende fé como “sentimentos inexplicáveis relacionados a coisas boas” (minha definição).

À fora este grave encalço não há mais o que lamentar no filme. A qualidade do filme é com certeza para mim a melhor de todos os filmes cristãos lançados, inclusive da mesma produtora. A qualidade dos atores é tão essencial para uma narrativa desse tipo, e graças a Deus, eles se esmeraram no casting. Além do ator principal, Joseph Fiennes, ser um velho conhecido, inclusive de filmes cristãos, sua qualidade é inestimável para um filme como esse. No intuito de fazer da narrativa de Clávius (um Tribuno Romano pressionado a investigar a ressurreição de Cristo por Pôncio Pilatos) ser cada vez mais pessoal, o diretor se esmera em close ups e chega a exagerar na expressão de toques entre os personagens. Mas absolutamente nada disso compromete, ao contrário, são detalhes que enriquecem a narrativa envolvente da história de Clávius.

 

| A famosa ladainha hollywoodiana “ouça a voz do seu coração” não é pronunciada, mas está em todo lugar.

 

Como todo filme desse tipo, o pecado pode ser o de carregar um ritmo mais lento, no entanto, as interpretações roubam nossa atenção e nos fazem imergir na Jerusalém do tempo de Cristo. Cenário, figurino e principalmente fotografia merecem destaques. É possível que minha baixa expectativa para filmes como esse garantam a surpresa quando a qualidade é profissional. Mas o fato inegável é que não há nada perceptivelmente amador no filme, a qualidade é impressionante.

A escolha do Jesus foi muito feliz em termos de figura, a verdade é que o ator não é dos melhores, mas não compromete. Já sua figura é muito parecida com aquilo que possivelmente o verdadeiro Jesus se parecesse. É semelhante aos homens daquele tempo e daquela terra, assim como se assemelha até a restauração feita em computador da face relacionada a do santo sudário (que também recebe menção no filme).

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O retrato feito dos discípulos também é digno de nota, não são apresentados como heróis, ao contrário, reconhecem suas falhas. Uma pintura do relacionamento entre eles é pincelada com cores alegres, e tons de sorriso. Uma indicação clara de que tudo mudou para melhor quando a esperança ressurgiu da tumba. Algumas releituras de cenas bíblicas são provocadas, mas tudo com muita liberdade poética e funcionalidade para a história principal. Não há nada que possa comprometer o evangelho no relato.

Enfim um filme cristão muito bom e muito recomendável, e que tem uma característica que poucos filmes dispõe na minha vida hoje: Quero ver novamente. A jornada de Clávius é muito interessante e a medida que se desenvolve ela evoluí de maneira vertiginosa. Para mim o melhor dos filmes cristãos já produzido. Ainda não é o sonho de consumo, um blockbuster como Paixão de Cristo que arrastará multidões ou que converterá descrentes, mas é um fôlego de esperança que ressurge.

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