Pupilas em Brasas #76 – Acusados – Cultura do Estupro, Mimimi ou Não?

O estupro de uma menina de dezesseis anos reacendeu um debate que parecia adormecido. O estupro é encarado ainda com uma certa confusão. Falar, discutir e refletir, talvez seja a unica forma dessa confusão se dissipar. Por isso, Léo Agrelos, Milla Teixeira, Keila Cruz, Thais Xavier e Nito Xavier  se colocam na linha de fogo em busca de transpassar essa cortina de fumaça.

O tema é tenso e por mais que em alguns momentos fizemos uma outra piada para tentar amenizar o clima do cast, pode ser que o assunto por si só já te cause um certo desconforto. Ou

Isso pode render muita conversa além do cast. Não se preocupe em  deixar os comentários. Estamos entre amigos construindo pontes.

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Leonardo Agrelos
Se acha um host, mas não sabe houstear. Se acha um podcaster, mas tem a linguá presa. Se acha um nerd, mas nunca terminou de ler O Senhor dos Anéis. Se acha um escritor, mas sempre procura no Google como se escreve impeachment. Entre tantos achismos uma certeza, a de que tem que melhorar como pessoa para parecer menos com um babaca.
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  • Dayane Aragão

    Enquanto escutava o episódio, eu literalmente me senti pesada. Era como se alguém estivesse limpando algumas feridas que eu nem me lembrava de existir. Quantas garotinhas não pediram ajuda para serem escutadas, mas os pais e demais adultos achavam que eram apenas uma frescurinha? É um pouco triste pensar que algumas pessoas conseguem enxergar o próprio corpo como apenas um objeto, pois eu perco já cansei de pensar quanto tempo perdi chorando, depois de escutar umas “cantadas” agressivas.

    Evito filmes que tratam sobre abuso e eu evitei ler até as chamadas sobre o caso da menina que foi abusada por trinta caras. Só ler, acidentalmente, a chamada da notícia, me senti mal, com vontade de sentar em um canto escuro e chorar como quando eu tinha cinco anos e um cara abaixava as calças na minha frente, falando que era uma brincadeira.

    Quando eu tinha uns cinco anos, fui com meus pais na casa de uma família amiga. Ali, pelo que me lembro, eu vivia correndo e explorando a casa, principalmente em um quartinho de bagunça que tinha por lá. Numa dessas “explorações”, um dos filhos da família perguntou se podia brincar comigo. O cara ainda chegou a abaixar minha calça, pedir para “brincar” ali, mas eu sempre fui chorona e abri o berreiro, como se soubesse que aquilo era errado. Eu sabia que era errado. Eu sempre fui criada na igreja e a partir daquele dia eu passei a entender que tenho um anjo da guarda forte, pois eu era criança e neguei. Eu tinha cinco anos, mas me lembro de não gostar da forma como o cara falava, pois parecia que era algo que eu deveria fazer, uma obrigação. Naquela época, não havia uma desculpa para a sociedade usar contra mim, mas poderia ter usado contra meus pais “como é que você deixa uma criança sozinha com um garoto?”.

    Meus pais nunca souberam o que me fez chorar e ter vontade de ir para casa e eu nunca contei sobre aquilo. Aquele dia ficou registrado em minha cabeça como se fosse um filme. Eu sempre estou lá, parada, sendo bajulada para fazer algo que não quero e ganhar um brinquedinho velho. Eu estou lá, em pé, começando a chorar, sentindo que há um protetor segurando meu ombro direito e falando que nada de mal vai me acontecer, que eu sempre serei protegida.

    É irônico pensar que hoje as pessoas estão mais preocupadas em achar uma desculpa do que ajudar. A proteger o acusado do que a vítima só para que o caso acabe mais rápido. Minhas roupas, segundo dizem, fala exatamente o que eu quero que a sociedade faça comigo, quem eu sou, o que penso.

    Quando eu passei a ter medo do meu guarda-roupa, quando passei perceber que eu comentava absurdos como “com esta roupa, ela está pedindo” e me arrepender disto, eu também passei a perceber que a cultura do estupro está em nossa sociedade (não sei ainda se enraizada ou apenas jogada e usada quando bem convém).

    Se hormônio fosse desculpa, então muita mulher abusaria da TPM, não é mesmo? Mas é estranho pensar que, devido a TPM, muitas mulheres foram acusadas de histéricas, loucas… Talvez ainda queremos viver naquele passado onde um grupo é fraco e o outro é forte. Ainda queremos ter mais e mais motivos para usar como desculpas esfarrapadas.

    Penso, então, que ainda não temos coragem de carregar nossa cruz.

    OBS: Desculpe o texto gigante, mas usei vocês de desabafo mesmo, hehe.

    • Caracas! Estou sem palavras. Obrigada por compartilhar o seu pensamento e experiência.

  • Luciana Santos

    Alô pupileiros!
    Cheguei aqui pq a Thais comentou lá no Graça Girls (jabá gratis hahaha) e o ivandro menezes compartilhou o cast de vcs.
    Confesso que fiquei um pouco com medo no início do que ouviria por aqui, mas…. só tenho a agradecer!
    Excelente cast, pessoal, vcs trouxeram uma terceira vertente sobre o tema, ficou muito show, os argumentos levantados e a fala da Keila (não sei se é Keila mesmo, se não for, me perdoe) sobre o feminismo muito me contemplou. É bom saber que existe mais mulheres cristãs com uma visão consciente acerca do Evangelho e também do feminismo, e estão dispostas a acrescentar.
    Obrigada mesmo e forte abraço!

  • Igor Reis

    Iae, pessoal! Quão dark e difícil é esse tema. Pensar que em nosso mundo pode acontecer um estupro por 30 homens a uma garota de menor. Se ela quis ou não, não importa, ela tem 16 anos e até onde eu sei, isso é estupro mesmo com o consentimento dela.

    Na bíblia há alguns casos de estupro. Um destes é o do Rei Davi, que está nos capítulos 11 e 12 de 2º Samuel. Era época de guerra, provavelmente na primavera. Estava anoitecendo e o rei não conseguia dormir. Resolveu ir até sua sacada. De lá dava pra ver boa parte da cidade e avistou uma jovem tomando banho. Procurou saber quem era e mandou chama-la. Eles tiveram relações sexuais. A Bíblia não conta se foi da vontade dela. Aquela mulher, estava em seu período fértil e engravidou. O esposo dela estava na guerra e Davi mandou chama-lo e por 2 noites o rei tentou persuadi-lo a ir para casa se deitar com sua esposa, mas ele não foi. Então, Davi mandou ao seu General, pelo próprio homem, uma carta mandando colocá-lo no fronte da batalha para que fosse morto e isso aconteceu. O rei pensou que estava livre de que alguém descobrisse o seu pecado. Porém, Deus enviou o profeta Natã ao rei e este contou uma história que ajudou a Davi reconhecer o seu erro e este escreveu a sua confissão no Salmo 51. Ele diz: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, por teu amor; por tua grande compaixão apaga as minhas transgressões. Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue (v. 1-3, versão NVI). “Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e mais branco do que a neve serei. Faze-me ouvir de novo júbilo e alegria; e os ossos que esmagaste exultarão. Esconde o rosto dos meus pecados e apaga todas as minhas iniquidades (v. 7-9, NVI).” Esse Salmo é uma prova de que a graça de Cristo sempre existiu, não é algo somente do Novo Testamento. Mostra também que Deus perdoou um assassino e estuprador. Em Atos 13:22, Ele chama Davi de “o homem segundo o seu coração”. Se Deus perdoou esses pecados, Ele pode perdoar qualquer um.

    Abraços

  • Nestor de Lucas

    Olá galerinha do bem! Foram realmente corajosos em abordar o tema. Eu até temia que isso acabasse desandando, não pela falta de aptidão dos senhores, mas pela delicadeza do que se trata. Gostei muito do cast e este vai pro meu top 3. Sou psicólogo, atuo na avaliação de criminosos condenados e lidar com esse tema é parte da minha tarefa diária. Mesmo que vocês já tenham falado “tudo que deveria ser dito”, gostaria de deixar aqui algumas informações que podem ser interessantes. A primeira é sobre o perfil da vítima. O argumento sobre a roupa provocativa contrasta o fato de que a maioria das vítimas dos “estupradores de rua” (aqueles que escolhem e perseguem uma vítima com prévia intenção de estuprá-la) são garotas vestidas de forma recatada ao modelo de “crente saindo da igreja”. Outra informação interessante é que mesmo os estupradores seriais, em sua maioria, tecem o discurso de que a vítima (ou vítimas) contribuíram para o crime ou aceitaram a prática em algum grau e, por incrível que pareça, realmente acreditam na história que contam. Ou seja, a velha história do “ela queria” não é coisa apenas do cara que abusou da amiga bêbada de saia curta, mas sim, o legítimo discurso do monstro pervertido que todo “homem” diz que lincharia se encontrasse pela frente.

  • Fala, embrasadas e embrasados! Não sei bem por onde começar! Ouvi o episódio em minhas dias e vindas semanais entre trabalho e casa. E em alguns momentos, parecia que não estava onde estava, mas estava em um plano suspenso, paralisado no qual só ouvia o que vocês estavam a falar. Confesso que com um tema tão denso — e que mexe de maneira considerável comigo — fiquei incomodado com a alegria da abertura, mas isso se dissipa quando o papo começa. E, de maneira sutil e espontânea, eis que surge a emoção. E como foi bom perceber que ainda somos capazes de nos comover, que ainda somos capazes de nos solidarizarmos uns com os outros, que somos capazes de sentir dor sem vivenciá-la (apenas se dispondo a estar no lugar do outro). É chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram! Enfim, passei para registrar a minha gratidão pela companhia que me fizeram ao longo da minha volta para casa e pela excelente reflexão que me propuseram.

    P. S.: E, como bom amante de filmes, gostei muito da escolha dos filmes para serem tratados aqui. Recomendaria um filme inglês chamado Provoked, que trata desses ciclos de violência doméstica, com um caldo do aspecto cultural e religioso bem forte e interessante (em especial, por fazer um contraste entre “civilizações”, demonstrando em relação à mulher mais semelhanças que supostas diferenças).

    https://youtu.be/PXUSrFEPzy8

  • Fala, cabri

  • Ótimo episódio pessoal! É interessante notar que essa “cultura” começa a impregnar cedo nas pessoas, sem que a pessoa realmente entenda a seriedade disso tudo. Na escola mesmo, lembro que já existia essa mentalidade de embebedar as meninas para ficar com elas, como algo que “não era nada demais”, sem ter noção que é um ser humano que está sendo “usado”. Só que é assim que começa, e só piora depois. E de inocente isso não tem nada… BTW, outro dia vi na TV (não lembro o canal, pois eu estava “de visita”) uma reportagem sobre o que acontece com adolescente em bailes funk. Crianças confessando o que faziam pra forçar as meninas a fazerem coisas horríveis. Não vi tudo, mas o que vi já foi chocante.

    Abraço
    EddieTheDrummer (PADD)

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