Crítica: Gravidade

Verdade seja dita: Sandra Bullock nunca esteve tão linda como em Velocidade Máxima, de 1994, quanto está agora, 20 anos depois, em Gravidade (Gravity. EUA, Inglaterra, 2013). Enquanto em Velocidade Máxima ela se firmava como a Namoradinha de Hollywood, cargo que possuiu por muitos anos, hoje em Gravidade ela se torna a mãe que gostaríamos de dar aos nossos filhos, queremos envelhecer ao lado dela. E maternidade é um dos inúmeros temas a que Gravidade se propõe a discutir.

Gravidade

Da mesma forma que Ridley Scott e Sigourney Weaver misturaram tensão espacial com o dilema da maternidade em Alien (Ripley lutando pela voltar para sua filha deixada na Terra, contra um ser que representava tanto a submissão feminina perante o homem quanto a superioridade feminina perante toda a humanidade), em Gravidade Alfonso Cuarón expõe a luta pela sobrevivência de uma ora temerosa e frágil, ora brava e corajosa Dra. Ryan Stone, para voltar à Terra (lugar onde ela deixou a lembrança da tragédia da perda de sua única filha), depois de ter sido atingida por destroços de um satélite russo, abatido via ataque terrestre da própria Rússia. Na história, a Dra. Stone e o astronauta Matt Kowlsky (George Clooney, apaixonantemente canastrão como sempre) são os únicos sobreviventes e ficam à deriva pelo espaço sideral, tentando desesperadamente atingir estações espaciais na órbita terrestre, buscando a maneira mais rápida de voltar sãos e salvos para a Terra. Eis a premissa básica. O filme começa a se aprofundar quando propões discussões como “por que motivo eu preciso querer me salvar quando tudo o que era importante pra mim já não existe mais?” “Que tipo de mãe sou eu que deixa uma criança morrer?” “Quão certa ou errada estou em dar tudo de mim para me salvar, se deixei minha única filha morrer?” São perguntas que surgem de maneira subjetiva, que colocam a maternidade de Ryan em cheque não pelos telespectadores, mas por ela mesma, e que leva a narrativa para caminhos que vão nos abrir mais discussões e reflexões sobre nós e nossa maneira de nos comportarmos perante diversas situações.

O que torna Gravidade tão especial é sua facilidade e singeleza em colocar ao telespectador discussões práticas como a resiliência perante adversidades e qual a medida de cada um quando colocados em situações onde a sua força de vontade e somente ela, vai determinar sua vida ou sua morte ou simplesmente o rumo que sua vida vai tomar depois das coisas terem saído de uma maneira diferente o que você esperava. De maneira um tanto confusa, pessoas estão comparando Gravidade a 2001: Uma Odisséia no Espaço. Calma lá. As discussões a que Gravidade se propõe são anos-luz diferentes das de 2001. Enquanto 2001 é muito mais filosófico no seu âmago, Gravidade celebra a força do ser-humano, tanto física e mental quanto espiritual. Lida com a força que o homem precisa buscar para continuar vivendo, mesmo quando tudo lhe é tirado. Nesse caso, literalmente, até mesmo a gravidade e o chão.

Rimas visuais belíssimas mostram o renascimento, gravity copya evolução e a vitória do homem (sempre representado por Sandra Bullock, num dos melhores papéis e interpretações de sua carreira) sobre os problemas e vicissitudes. Sandra Bullock dá todo o peso e o tom certo do medo, da força, da aceitação e temor de prosseguir que uma personagem em sua situação demonstraria. Nomes fortes permeiam a lista de indicadas ao Oscar de Melhor Atriz, o que torna a disputa acirrada para Sandra Bullock. Mas seu nome constar ali, por ter carregado um filme inteiro nas costas, de maneira excepcional, não é nada mais, nada menos do que justo e merecido.

Tecnicamente falando, Gravidade é impecável e vai se tornar o campeão do ano nesses quesitos do Oscar. Alfonso Cuarón recebeu carta branca da Warner para usar e abusar de novas técnicas para representar a relação do homem com o espaço, que certamente se tornarão referência no futuro, tal como 2001 na década de 60 se tornou nos anos posteriores (aqui sim, comparação justa entre ambos os filmes). Destaque para a fotografia, comandada por Emmanuel Lubezki, que trabalhou com Terrence Malick no belíssimo A Árvore da Vida, um das mais belas fotografias da história do cinema. Gravidade concorre nessa categoria com O Grande Mestre, filme épico chinês, que tem tradição de belas fotografias; Inside Llewin Davis, filme dos Irmãos Coen que retrata belamente o cenário folk nova-iorquino da década de 60; Nebraska, filme que também concorre ao Oscar de Melhor Filme com Gravidade, bela e singelamente fotografado em preto e branco e o azarão, Os Suspeitos.

Gravidade está sendo classificado como uma ficção-científica. Apesar de ser um gênero riquíssimo, Gravidade vai muito além disso. Gravidade é grande demais para ser colocado num único gênero e molde. Ele é, como já dito, é uma grande celebração ao espírito humano. Junto de Sandra Bullock, temos a catarse de que somos seres mais fortes e resistentes do que imaginamos e, quando os créditos sobem, nos erguemos grandiosos até mesmo perante a imensidão do Universo.

OPINIÃO DO PUPILAS EM BRASAS:
Belíssimo filme, impecavelmente dirigido, executado e representado.
Sandra Bullock num dos melhores filmes e papéis de sua carreira.
Pra assistir na ponta da cadeira do início ao fim.
Recomenda-se um Dorflex no final do filme pra relaxar os músculos e dormir um pouco melhor. 😛

Rocha
Já assistiu e leu de tudo. Mas tem uma séria incapacidade em fazer contas de cabeça.
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