O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks

“[..] Mas a intenção destas páginas é descrever de forma precisa a transformação de Frankie e seu suposto mau comportamento, é importante notar que seu desenvolvimento físico não foi, no início, acompanhado por um desenvolvimento mental semelhante. Intelectualmente, Frankie não era, nem de longe, a mente quase criminosa que criou a Sociedade de Libertação dos Peixes e que, quando adulta provavelmente irá comandar a CIA, dirigir filmes de ação, projetar foguetes ou, quem sabe (se ela se perder no caminho), chefiar uma organização criminosa.”

Publicado no Brasil pela Editora Seguinte, O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks (344 páginas) é um livro em que todas as personagens são magnificamente bobas e que possui uma forma peculiar de contas os fatos, aliás, a forma como um assunto ou um pensamento (normalmente bobo) é levado à consequências estrogonoficamente exageradas é muito divertido. As vezes uma simples ideia ocupa uma página inteira com uma narrativa que chega tirar nosso folego para chegar a lugar nenhum, e faz isso de um modo que é legal, porque desde o início é possível perceber que não vai chegar a lugar nenhum mesmo, mas mesmo assim a gente acaba querendo acompanhar a mente dos personagens.

“Roupas caras e posição social não tinham muito efeito em Frankie. Mas era o dinheiro e a popularidade que tornavam a vida de Matthew, Dean, Alfa e Callum extremamente fácil. Eles não precisavam impressionar ninguém e, portanto,  eram notavelmente livres de arrogância, ansiedade e comportamentos aspiracionais cansativos, como competir por notas ou ficar julgando as roupas uns dos outros. Eles não tinham medo de burlar as regras, pois as consequências raramente se aplicavam a eles. Eles eram livres. E eram tolos. Mas estavam seguros.”

A história acontece no colégio interno Alabaster, um colégio relativamente famoso e conceituado que conta com uma antiga sociedade secreta chamada A Leal Ordem dos Bassês (really?) e a protagonista é a adolescente, em fase de mudanças, Frankie Landau-Banks, que, como veremos na história passou a ser “alguém” após ter ganhando “algum volume em lugares atraentes masculinamente falando”, e isso, entre outras coisas, a deixa desconcertada em alguns momento da história.

 “[…] Não possui a menor relevância  para a compreensão da Leal Ordem do Bassês, da Sociedade de Libertação dos Peixes ou qualquer outra organização espúria que cometeu os assim chamados “crimes” na Alabaster o fato de que Frankie Landau-Banks cursou dança moderna e jogou ultimate frisbee, muito embora ela o tenha feito. Não importa que ela tenha escolhido o latim como disciplina eletiva porque seu pai achou que ela deveria cursá-la. E não é da conta de ninguém a decoração de seu quarto no alojamento.”

A Sociedade Secreta da Leal Ordem dos Basses é uma sociedade escolar que existe basicamente para pregar peças e criar vínculos e é com base no desejo de ser notada (ainda que sem ser descoberta), com base no desejo do poder de fazer, com base no sentimento de que pode ser superior ao que a sociedade do colégio e a própria Leal Ordem apregoam (ainda que sem palavras) que vemos Frankie desenvolvendo e dominando a Leal Ordem. As “travessuras” são bem engenhadas e divertidas (bem coisa de colégio americano mesmo, aliás… porque eu nunca pensei em coisas assim para fazer em minha época de colégio?), mas algumas passam um pouquinhos dos limites, afinal de contas, que adolescente em sã consciência iria criar uma campanha para que que houvesse um buffet de saladas na lanchonete do colégio?

“(É claro que os membros da Leal Ordem poderiam ter usado e-mails para comunicar os horários e locais de seus encontros, mas era parte de sua missão da maioria das sociedades secreta – assim como é parte da missão da maioria das sociedades secretas, na verdade – não se completamente secreta. Ser um mistério sobre o qual as pessoas saibam apenas o suficiente, para ficarem se perguntando o que mais há para saber, de modo que a filiação na sociedade ganhe um certo prestígio. Se ninguém souber nada sobre a sociedade, é infinitamente menos empolgante envolver-se com ela, certo?)”

Algumas das partes que gostei muito foram as trocas de e-mail entre Frankie e Alfa. Eu, particularmente, não me lembro de ter lido um livro em que todo um capítulo fosse composto de troca de e-mails, mesmo que um capítulo pequeno. De um modo geral a leitura do livro corre de maneira tranquila e rápida. Na verdade, achei até um pouco rápida demais e no final do livro eu fiquei me perguntando se o final seria algo apressado e “feito nas coxas”, mas não; a história termina de modo bem tranquilo e estou louco para dar um spoiler aqui, mas não vou cometer essa maldade.

Outro momento que eu adorei foi o capítulo dos Positivos Negligenciados. Acho que todo mundo em algum momento da vida começou a criar novos termos, ou uma nova linguagem inteira que fizesse com que suas próprias idéias fossem melhor representadas e esse capítulo trata disso. De começo eu até cogitei a ideia de aplicar alguns desses termos ao meu cotidiano, mas depois eu percebi que seria maluquice (ainda mais maluquice eu quero dizer).

“Como uma pessoa se torna a pessoa que ela é? Quais são os fatores de sua cultura, infância, educação, religião, condição financeira, orientação sexual, raça, interações cotidianas – que tipo de estímulos a levam a fazer escolhas que farão com que outras pessoas a odeiem depois?”

Enfim, O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks é um livro infanto-juvenil bem divertido, que tem capacidade de fazer com que meditemos em comportamentos e situações extremamente comuns na vida como ligações, preconceitos, auto-afirmação e a própria existência solitária dentro de um grupo que não representa necessariamente os mesmo conceitos que seus componentes vivem. O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks é um livro que fala da vida.

Minha nota para O Histórico Infame de Frankie Landau-Banks é 8.0 cachorrinhos na janela.

Leonardo Agrelos
Se acha um host, mas não sabe houstear. Se acha um podcaster, mas tem a linguá presa. Se acha um nerd, mas nunca terminou de ler O Senhor dos Anéis. Se acha um escritor, mas sempre procura no Google como se escreve impeachment. Entre tantos achismos uma certeza, a de que tem que melhorar como pessoa para parecer menos com um babaca.
http://pupilasembrasas.com.br
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