Relevância e Inclusion Riders

Todos os anos, nesse período, somos inundados com todo tipo de conteúdo sobre o circuito de premiações mundo a fora. Debates envolvendo preferência do público, críticos de cinema-arte e crítica especializada ressuscitam questionamentos sobre como ou se o cinema perdeu sua essência artística. Neste ano, especificamente, me perguntei o quão subjetivo esse debate se tornou e até onde ele nos leva. Afinal, o que torna uma obra em arte? Toda obra precisa ser artística? E mais, toda obra de arte é relevante?

Diferente de como era no passado, quando a Academia e os sindicatos reconheciam as produções com grande orçamento e alto alcance popular, hoje as premiações se estabeleceram como uma amostra da indústria cultural cinematográfica. É possível traçar uma linha do tempo que nos mostra como ela foi igualmente influenciada e moldada por cada momento histórico. Arrisco dizer que elas são como um termômetro da nossa época. É a nossa história ganhando relevância, contada em longas, documentários, animações.

E esse Oscar nos mostrou algo que pode até não estar acima da arte, mas caminha lado a lado em importância com ela no nosso tempo: a relevância. Afinal, o que é relevante para o nosso tempo? Uma obra com tom estético artístico ou sua capacidade de gerar representação para uma geração?

Uma das definições de relevância usada por Houaiss é: “3. de grande valor ou interesse” e “4. que se sobressai”. Podemos dizer que o relevante é algo maior ou mais alto, que sai do padrão, que escapa a normalidade. E, na edição deste ano, um dos momentos mais marcantes foram as palavras de Frances McDormand, ganhadora do prêmio de Melhor Atriz. No final do discurso, muito bonito – anárquico, eu diria – ela usou duas palavras: Inclusion Riders. (ARREPIOS, MEUS AMIGOS! ARREPIOS).

Os Cavaleiros da Inclusão é um conceito relativamente novo, mas já praticado em Hollywood há muito tempo. Como Cavaleiro da Inclusão, uma pessoa poderosa na indústria pode incluir uma cláusula em seus contratos, exigindo que a produção para qual foi chamada tenha 50% de diversidade no elenco e equipe! Mais pessoas encenando, dirigindo e produzindo são mais pessoas se enxergando na tela. Isso não é sobre “modinha”, como muitos gostam de chamar. É sobre os ventos de mudança. É refazer regras e ver as transformações que acontecem como consequência.

A pergunta que faço é: apenas pessoas poderosas podem ser inclusion riders? Sendo a resposta um óbvio não, faço outra (sim, estou cheia de perguntas desta vez): podemos escolher quando ser inclusion riders? A outra resposta óbvia também é não.

O dia inteiro, todos os dias, nossas decisões são influenciadas e moldadas (assim como a arte e a indústria cultural) por atitudes que nos tornam relevantes ou não para o ambiente em que estamos. Desde não ultrapassar o sinal vermelho, não jogar lixo na rua, cumprimentar o porteiro até defender e proteger alguém que sofre um ataque racista e machista, em qualquer lugar.

É uma escolha que pra nós não está em cláusulas de contratos milionários, mas que pode mudar significativa e definitivamente o dia ou a vida de alguém. Afinal, não é pra isso que estamos aqui?

Até a próxima! 😉

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