Crítica – Se Meu Apartamento Falasse

e5a808250803129f1471687f9b67b10fUm filme não precisa ser complexo. Um filme não precisa ser grandioso, muito menos colorido. Um filme precisa contar bem uma história. Mas, acima de tudo, um filme precisa emocionar.

Hoje em dia tornou-se muito complicado se posicionar em favor de um filme, seja ele qual for. O “gosto” tornou-se um ser público, movido pela consciência geral. Filmes precisar ser em “três dimensões”, exibidos em salas cheias, com filas na entrada e muitas, MUITAS imagens, vídeos e produtos explodindo em cores por todos os cantos. Tudo isso, meses antes da sua estreia.

Todos os filmes que se encaixam nessa descrição são ruins? Não prestam? Claro que não. Existe problema em gostar desses filmes, MESMO ELES SENDO RUINS? De maneira alguma. Só esses filmes que valem a pena serem assistidos? NÃO! POR FAVOR! NÃO!

A Rede Cinemark lançou ano passado, uma programação interessantíssima: o Clássicos Cinemark. São filmes clássicos, antigos, remasterizados digitalmente, exibidos no cinema a preços especiais. Deram a chance de amantes de filmes verem clássicos no seu formato original. Clássicos como Casablanca, O Poderoso Chefão e Laranja Mecânica, entre outros, fazem parte da seleção.

Qual não foi minha alegria em ver Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment. EUA, 1960) nesta lista. O clássico de Billy Wilder é um filme pouco conhecido do grande público, que merece ser redescoberto ainda hoje. Mesmo com essa tradução bobalhona. Sério.

Billy Wilder é o gênio por trás de Crepúsculo dos Deuses e aquela que é considerada a melhor comédia de todos os tempos, Quanto Mais Quente Melhor, com Marylin Monroe. Aqui em Se Meu Apartamento Falasse, ele mascara um drama romântico com uma roupa de comédia e consegue, talvez, um de seus melhores filmes.

Tirando A Lista de Schindler, que possui algumas cenas coloridas, Se Meu Apartamento Falasse foi o último filme com fotografia em preto-e-branco a ganhar o Oscar de Melhor Filme, até a vitória de O Artista, em 2012. Um ótimo argumento para te fazer assistir. Não? Vou tentar mais uma vez.

Diálogos inteligentes, engraçados, precisos. Nada pretensioso. Nada pedante. Muitas vezes temos esses preconceitos com filmes antigos, em preto-e-branco. Aqui, Jack Lemmon, com um carisma assustador, que te faz querê-lo como amigo pra sempre, nos guia por uma história melancólica, mas contada no tom certo. Por isso a beleza de pensar no contexto e nas entrelinhas da Nova York da metade do século XX. Toda a malícia escondida em gestos e indiretas. Toda a solidão e a falta de amor-próprio. Todo o anseio de ser feliz e a busca pela felicidade contrastada com a busca pelo prazer e a falta de compromisso.ENT_apartment

Jack Lemmon é C.C. Baxter, um jovem simples e solitário que trabalha numa companhia de seguros de Nova York, uma das maiores do país, que se vê forçado a emprestar seu apartamento aos executivos da empresa para suas, digamos, aventuras extra-conjugais. Ele não busca obter nada em troca dos favores. Só não consegue dizer não aos seus superiores. Esse fato acaba por atrapalhar sua saúde e suas chances de conquistar a simpática ascensorista Fran Kubelik (a linda e num papal apaixonante, Shirley MacLaine). O que se segue é uma das mais tristes e apaixonantes comédias dramáticas da história do cinema. Mas não espere rir até chorar ou chorar de tristeza. O amor não é triste, nem engraçado. O amor faz você sentir. E é assim que você se sente ao final: vivo, sentindo seu coração pulsar.

Se Meu Apartamento Falasse é uma ótima chance de deixar preconceitos de lado e dar uma chance ao cinema. Ele nasceu na vontade de contar histórias. Boas histórias. E elas estão aí, aos montes, prontas para serem descobertas. Mesmo tendo mais de 50 anos. Mesmo não tendo cores.

Rocha
Já assistiu e leu de tudo. Mas tem uma séria incapacidade em fazer contas de cabeça.
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