Crítica – Sniper Americano

Filmes transformam o mundo. Como diria nosso editor e podcaster Nito Xavier, já começamos cheios de frases de efeito e clichês. Mas, para o bem ou para o mal, essa é a verdade. Filmes transformam o mundo.

Fora o objetivo primordial do cinema, que é entreter, filmes também nos levam a pensar sobre o mundo em que vivemos e sobre quem somos. Afinal de contas, seja uma simples animação sobre brinquedos ou insetos, ou óperas espaciais, os filmes traduzem sentimentos, problemas e relações humanas.
O problema surge quando filmes passam a tratar de temas delicados e não se posicionam nem a favor, nem contra os mesmos. E é nesse ponto que começamos a falar de Sniper Americano (American Sniper. EUA, 2014).

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É uma pena quando um filme consegue se vender, apresenta uma premissa interessante, mas escorrega na execução e no resultado final. Sniper Americano, o novo filme de Clint Eastwood na direção, traz a história real do “atirador de elite mais letal da história militar americana”. Com mais de 160 mortes confirmadas pela CIA, ou até muito mais segundo o próprio Chris Kyle (o tal sniper), ele tornou-se uma “Lenda”, como ele é chamado pelos colegas fuzileiros e SEALs no filme. O roteiro foi baseado no livro homônimo, onde Kyle conta sua trajetória desde quando era caubói no Texas até tornar-se atirador de elite no Iraque, durante o início da Guerra ao Terror (algo entre 2002 e 2006).

O livro é chato. Ponto. É sobre um bronco texano tentando escrever sua história, que é interessante, é assustadora, mas que não soube ser bem contada. Nem em livro, nem em filme. Essa história já era conhecida antes do filme ser anunciado: Chris Kyle, herói de guerra e lenda militar, quando já tinha servido seu país e honrado sua pátria, é assassinado em solo americano, por outro veterano, abalado emocionalmente pela guerra. Os motivos não são conhecidos. A alegação é insanidade, um trauma pós-guerra. Trauma esse que Chris também sofria; que poderia ter sido explorado de maneira corajosa na época em que vivemos, onde esse assunto é tão pertinente. Mas não. Sniper Americano é covarde em não tomar partido, seja do lado propagandista pró-guerra, tornando os soldados americanos heróis supremos; seja criticando duramente os custos pessoais em cada um dos envolvidos com a guerra.

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Num mundo onde o 11 de setembro é ainda algo tão presente, uma ferida que custa a sarar nos americanos; onde Je Suis Charlie ainda é algo tão vivo; num mundo onde o ódio por homossexuais, negros, judeus é execrável e inadmissível mas o ódio por muçulmanos e povos de origem árabe é aceitável e até estimulado, um filme como Sniper Americano é perigoso. Mesmo que não exalte a ação militar americana no Oriente Médio, ele não toma partido contra o ódio xenófobo e pode ser mal interpretado, causando ondas de nacionalismo nos EUA, como está acontecendo.

Inocentes existem dos dois lados de todo combate. Pessoas que buscam sobreviver em meio ao caos. A guerra é suja, cobra um preço alto demais e muitas vezes, seu resultado é danoso e permanente, como Nascido em 4 de Julho, Nascido Para Matar e Entre Irmãos mostram tão claramente.

OPINIÃO DO PUPILAS

Sniper Americano é um filme fraco, mediano, com um roteiro preguiçoso, atuações dentro do padrão, efeitos especiais vergonhosos e o pior bebê de mentira já visto no cinema. Arranha a superfície ao tratar de traumas psicológicos da guerra, cai no lugar-comum ao tratar somente um lado da guerra, mostrando o inimigo como um super-vilão e torna-se perigoso ao ser mal interpretado, podendo levar ao ódio e ao nacionalismo exacerbado.

Um produtor audiovisual, escritor, roteirista, enfim, qualquer formador de opinião, hoje mais do que nunca, tem a missão de buscar construir um mundo melhor. Isso começa em cada indivíduo. E são filmes como Sniper Americano que, inocentemente ou não, podem criar exatamente o contrário.

Rocha
Já assistiu e leu de tudo. Mas tem uma séria incapacidade em fazer contas de cabeça.
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